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Cuaderno de Córdoba · Dia 4 de 4 · TCI Global Conference 2026

Capacidade não é impacto

O último dia do TCI fez a pergunta mais incômoda da semana: como se prova que um cluster mudou alguma coisa?

Leandro Pasini e Maria Augusta MiglinoCórdoba, 30 de outubro de 2026Leitura de 6 minutos

Durante três dias falamos de propósito, de relações e de confiança. O quarto dia mudou de tom. Na plenária da manhã, a pergunta já não era o que os clusters fazem, e sim o que muda porque eles existem. E a resposta mais honesta veio num slide.

As pontes estão construídas. A PARP, a agência polonesa que apoia clusters desde 2005, apresentou seu último estudo comparativo: 42 coordenadores e 733 empresas associadas. O título de um dos slides resumia tudo: as pontes estão construídas, poucos as atravessam. Os clusters conectam empresas, assinam acordos, se aproximam das universidades. Mas mais da metade não tinha nenhum projeto de inovação conjunto. E, embora 55% dos membros digam ter grandes benefícios, 41% não sabem dizer se o cluster os ajudou a enfrentar uma mudança disruptiva. A capacidade aparece. O efeito, não.

De Puebla, no México, veio a outra metade da resposta. A equipe da UPAEP cruzou o mapa de clusters do estado com o Índice de Progresso Social de cada um dos seus 217 municípios e montou um painel para cada um, comparado com municípios de renda parecida. Entre 2020 e 2022, o índice melhorou em 122 municípios. As cooperativas de muitos povoados e municípios foram sendo incorporadas às cadeias dos clusters. E a política de clusters virou lei, para sobreviver a qualquer troca de gestão. O impacto também se mede onde as pessoas vivem, e não só onde as empresas produzem.

É possível ter 4.000 membros que produzem zero valor.

Construction Cluster Ireland, no painel sobre o impacto dos clusters.

Crescer não é a meta. O Construction Cluster Ireland cresceu mais de 50% em seis meses, e então fez algo que quase ninguém faz: parou de aceitar associados. Alguns ligavam todo dia e pediam de tudo, de um treinamento em saúde mental a infraestrutura de inteligência artificial. Antes de continuar crescendo, era preciso definir o que o cluster oferece e o que não oferece. O slide deles disse sem rodeios: crescimento é um teste de governança, não uma meta de captação.

Nem todo emprego é igual. À tarde, Emiliano Duch conduziu uma oficina com casos reais. Em Tamil Nadu, na Índia, o governo pede para manter o emprego automotivo diante da transição elétrica e da concorrência chinesa. O exercício obrigava a olhar a cadeia inteira. A montagem emprega muita gente, mas agrega pouco e é fácil de transferir. O design e o ferramental empregam menos, pagam melhor e se protegem sozinhos, porque dependem do que as pessoas sabem fazer. A medida, disse Duch, não é quantos empregos existem, mas quanto valor agregado fica no território. A Catalunha já tinha intuído isso em 1991, quando apostou nos videogames, um setor ainda pequeno, ao lado do têxtil que mais empregava. E a Dinamarca, potência mundial da carne suína, escolheu o caminho mais difícil: um acordo entre parlamento, indústria e sociedade para reduzir a área agrícola e plantar florestas. Às vezes a estratégia é ficar menor.

O mundo se parece conosco. No painel de talento, a partir da Spencer Stuart, apareceu a leitura mais latino-americana da conferência. Estamos acostumados a olhar o curto prazo e a navegar na ambiguidade. Hoje, ela disse, o mundo se parece muito mais com o que sempre aconteceu conosco. A vantagem de quem sempre viveu assim é uma ginástica: segurar o curto prazo sem perder a visão de futuro. O fechamento do painel completou a ideia: talento é uma infraestrutura compartilhada, que nenhuma empresa constrói sozinha.

As letras #TCI2026 no saguão da conferência, já quase vazio
O saguão da conferência, no fim do último dia. Foto: FuturAct.

Quatro perguntas. No primeiro dia, perguntamos se um cluster existe para vender ou para inovar. No segundo, quem cuida do que acontece entre o aperto de mão e o resultado. No terceiro, que pertencer não é conectar. O quarto completou a escada: propósito, relação, vínculo e, por fim, prova. Na cerimônia de encerramento, o ecossistema de clusters de Córdoba recebeu o reconhecimento de ponto de virada, a decisão ousada que mudou tudo. Um convidado internacional, ao comentar o caso Córdoba de manhã, tinha dito que aqui estão os ingredientes para uma grande história. Os ingredientes são a capacidade. A história será o impacto.

O que muda para quem dirige um cluster

Medir mudança, não atividade.Perguntar a cada membro se enfrentou uma ruptura e se o cluster ajudou. E devolver os dados.
Escolher pelo valor que fica.Nem todo emprego pesa igual. Importa o valor agregado que fica no território, hoje e amanhã.
Governar antes de crescer.Definir o que o cluster oferece antes de somar associados. Mais membros sem proposta é mais ruído.

O seu cluster mede atividade ou mudança?

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